sábado, 3 de março de 2012

Na senda das estrelas


Quando o dia apaga a sua luz
E a noite acende as estrelas,
Eu vejo sem Cristo a Cruz
E uma Ara sem capela.

E do Touro o sanguíneo olhar
Que é indício de bicho indômito.
E no éter a Baleia a nadar
É a que lançou Jonas num vômito?

O anátema de Diana eu comprovo.
Eterna coima: não há quem impeça
De com os sabujos Órion de novo
Fugir de Scorpio se a Leste o aponta, às pressas!

Na senda das estrelas eu deambulo
Porque é meu pensamento andarilho.
Mas, se avisto o Dragão, dou no pulo!
Ainda não tive com a Virgem um filho.

O rio Erídano, vo-lo cruzar
Sem haver ponte à travessia.
Avoco Pégaso a dali me passar,
Num vôo de encanto e feeria!

Nos domínios de Quíron sou deixado
O Mestre-Centauro do maior grego herói.
Por ele foi Hércules iniciado
Cujas suas glórias nem a morte destrói!

Tão logo me senti ali muito pávido:
Furou duma Lebre o bestunto uma Sagita.
Como no Velo D’Ouro por tocar era ávido,
Ficasse eu ali, não me valia a dita.

Tomei da Via-Láctea a rua extensa.
Pavimento de opala e incontáveis luzeiros
Deleitavam-se-me os olhos de letícia imensa
A pé eu andei recusando o cocho do Boieiro.

Num lago plácido do céu setentrional
Nadava um Cisne com altivez, beleza e graça.
Metamorfose de Leda não o seria afinal?
Oh! Vejo a Hidra um Corvo levar na Taça!

À Lua fleumática chorava uivante
Um Lobo que amor lhe requestava.
E, crendo a ele curvar-se a dura amante,
Todo o tempo uivava, chorava, uivava.

Voejavam pássaros sobre minha cabeça.
Quão belas as plumas pintalgadas!
E que dentre eles, o Pavão não se envaideça,
Porque era a Fênix minha ave adorada!

Já na via do Zodíaco, eu fui primeiro,
Sabendo de Marte a sua ausência,
Em seu santuário, a tocar do Carneiro
O Tosão de Ouro com todo o zelo e reverência.

Adiante, meus olhos deram um flagra:
Os Gêmeos de Leda, Vênus seduzindo.
Marte sabendo, uma guerra conflagra!
A perfídia da deusa não vou ficar assistindo.

O Capricórnio era por vê-lo curioso.
Mas antes disso, ouvi rugidos dum Leão.
Volvi o passo: vai que estivesse furioso!...
A enfrentar feras, eu não me atrevo não!

Apreensivo, corri dali qual um louco
Meu coração era só o descompasso da melodia.
Ah, se Orfeu a Lira dedilhasse um pouco!
Minh’alma, talvez, do som flutuasse nas harmonias...

Não custou tanto e eu achei uma saída
Findava-se a minha viagem astral.
Fui astronauta por um instante na vida
E o pensamento foi a espaçonave e o meu portal.


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